20 de agosto de 2026 Artesania Comunicação

PEGN| Cientista cria startup com ativo de planta chinesa, capta R$ 10 milhões e projeta faturar R$ 900 mil

Por

Victória Miranda

A pesquisadora e professora Soraya El Khatib, 55 anos, fundou em Campinas (SP) a S do bem Biotecnologia, startup de base tecnológica que trabalha com ativos da planta Artemisia annua. A empresa captou mais de R$ 10 milhões em recursos não-reembolsáveis de fomento à inovação, incluindo três projetos PIPE da Fapesp, além de apoios da Embrapii/Senai.

Classificada como early stage, a startup está na fase de pré-tração. Entrou no mercado efetivamente com seu portfólio completo em 2025, faturando R$ 90 mil e a projeção para este ano é crescer 10 vezes.

El Khatib iniciou a trajetória da empresa com um investimento inicial de R$ 10 mil vindos do próprio bolso. Em 2012, ela começou a pesquisa e, em 2015, formalizou o modelo de negócio ao ingressar na Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp (Incamp).

“Quando comecei com a ideia dentro da universidade, as pessoas falavam para mim: ‘Isso que você quer é impossível’. Mas eu acreditava. O empreendedor precisa acreditar piamente naquilo que almeja construir, senão não vai convencer ninguém”, comenta.

Em 2020, começaram a validar o negócio no mercado e lançaram o primeiro produto: um sérum rejuvenescedor, que permanece sendo o carro-chefe da empresa. Mais de 300 unidades foram vendidas na primeira semana. A pandemia de Covid-19 teve um impacto positivo na validação inicial, pois as pessoas em casa buscaram produtos para cuidados pessoais e bem-estar. A fundadora foi a primeira cobaia dos testes do produto, registrado como dermocosmético de Grau 2 na Anvisa. O produto atingiu uma taxa de 45% de recompra.

De 2020 a 2023, a startup enfrentou o período crítico do “vale da morte”, quando a receita das vendas ainda não cobria os altos custos de manutenção de uma empresa de biotecnologia. A virada ocorreu após encontrarem um investidor privado do setor. Atualmente, em busca do payback, a marca conta com 5 produtos no portfólio (espuma de limpeza, sérum, creme, bruma hidratante e loção com FPS 40).

O foco atual é estruturar o posicionamento e buscar tração no mercado nacional. No entanto, a marca já colhe reconhecimentos no exterior. No ano passado, a startup conquistou a certificação do PEIEX — programa de qualificação para exportação da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) — e integrou a Jornada Exportadora para o Paraguai e o Equador. Além disso, a tecnologia brasileira foi apresentada no Mobile World Congress (MWC), em Barcelona, onde a aceitação do público internacional se mostrou ainda mais rápida do que no mercado nacional.

Artemisia annua é uma planta famosa na medicina tradicional chinesa, adaptada ao solo brasileiro ao longo de 20 anos de pesquisas pelo Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp. A espécie possui mais de 3 mil bioativos. O principal desafio técnico foi a extração desses compostos sem poluir o meio ambiente com solventes orgânicos. A técnica utilizada, baseada em tecnologia alemã, é a extração por fluido supercrítico (utilizando CO₂ sob pressão e temperatura), um processo 100% limpo e sustentável.

O lançamento mais recente da marca foi uma loção hidratante repelente, lançada em abril de 2026. Fruto de 8 anos de desenvolvimento, o produto nasceu de um edital da Fapesp focado no combate às arboviroses e do reaproveitamento inteligente de frações do extrato. Ele oferece 6 horas de proteção contra mosquitos, não é absorvido pela pele (devido ao nanoencapsulamento dos ativos) e possui 10 vezes menos icaridina que os concorrentes convencionais.

A marca possui e-commerce próprio e controla toda a cadeia produtiva: desde o plantio orgânico e sem agrotóxicos da planta até o controle laboratorial de qualidade do extrato. A fabricação final do produto é terceirizada com parceiros auditados que economizam água e energia.

O nome S do bem remete ao compromisso com a Saúde, Ciência (Science), Sustentabilidade, Sabedoria e Sintonia dos ativos. A startup realiza a compensação ambiental de suas embalagens com o selo EuReciclo, enquanto pesquisa opções de embalagens sustentáveis com custos viáveis de escala. Além disso, aplica o conceito de upcycling, estudando como gerar novos produtos a partir do resíduo vegetal da extração.

Expansão B2B, rebranding e o legado feminino

As vendas acontecem por meio do site próprio, plataformas de marketplace (como Amazon e Beleza na Web) e parcerias físicas com clínicas de estética e farmácias de manipulação. A empresa também atua no modelo B2B (com parcerias white label e colabs). O tíquete médio dos produtos no e-commerce é de aproximadamente R$ 140.

A marca passou por um rebranding, renomeando a “S Cosméticos do bem” para “S do bem Biotecnologia” com o objetivo de refletir seus estudos e planos de expansão para além da cosmética. No radar, estão pesquisas em saúde (com cicatrizante e desodorante), agro (desenvolvimento de biopesticida via upcycling) e linha pet (focada em tratamento de dermatites). O time é formado por 10 pessoas no total, sendo 8 mulheres no time operacional.

Atualmente, os maiores desafios para expandir o negócio são o tamanho enxuto da equipe e a necessidade de novos aportes de investimento. Para a CEO, a verdadeira recompensa do negócio está no encantamento e nos resultados visíveis que a marca causa na pele e no bem-estar dos clientes. Seu grande objetivo é inspirar o empreendedorismo feminino na ciência e provar que o conhecimento acadêmico pode transformar a sociedade.

“O legado que a gente pretende deixar é inspirar mais mulheres para que possam empreender e dar o melhor de si. Deixo essa mensagem: vamos buscar ir além. Esse universo do ‘além’ é muito mais interessante, te coloca mais próximo do seu propósito e justifica a sua presença no planeta”, finaliza a cientista.

Texto original Pequenas Empresas Grandes Negócios, disponível em https://revistapegn.globo.com/startups/noticia/2026/08/cientista-cria-startup-com-ativo-de-planta-chinesa-capta-r-10-milhoes-e-projeta-faturar-r-900-mil.ghtml

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